Review: Bitter Ruin

Voltando para as “bandas das quais você provavelmente nunca ouviu falar”, a de hoje é a dupla inglesa Bitter Ruin, formada em 2007 por Ben Richards e Georgia Train ( que são lindos). O que eles tocam? Segundo a própria banda em seu site, o estilo deles é “ expressionismo contemporâneo”. Na prática, é o melhor voz e violão da atualidade. Aliás, é uma loucura: voz e violão (ocasionamente, rola um piano) tocando toda uma gama de estilos sem se prender a nenhum. A afinação dos dois é absurda, talvez só superada pela versatilidade vocal dos dois. E as letras… nossa…

Eles não tem gravadora, mas já trabalharam com algumas outras bandas, destacando dessas a “tour” com Amanda Palmer (do Dresden Dolls) em 2010: o que era pra ser UM show acabou virando uma parceria em todos os shows da Inglaterra e Irlanda, já que os músicos que originalmente iam tocar com ela ficaram impedidos de sair dos Estados Unidos (alguém na vida ficou feliz com o vulcão Eyjafjallajokull cuspindo fumaça sobre a Europa e cancelando os vôos dos outros).

E olha que sensacional: dá pra ouvir de boa os três álbuns na internet, legalmente E de graça. Não é lindo?

O primeiro EP da banda é de 2007, Bitter Ruin – Early Recordings. São só cinco faixas, das quais duas vão aparecer novamente nos outros trabalhos.  A primeira faixa, Trust, é uma dessas: ganha cara nova no We´re Not Dancing, de 2008. Nessa primeira versão, o refrão é um pouco mais lento. Mas já mostra a proposta da banda: o vocal e o violão mudam de acordo com o decorrer da música. E que vocal! As vozes de Georgia e Ben são incríveis e eles brincam com sua afinação e versatilidade de tons.

A segunda faixa, Chewing Gum, também aparece mais tarde, no terceiro álbum. Assim, restam três faixas: Roaming Soul, In e Cracked.  Roaming Soul é cantada principalmente pelo Ben, e realmente dá pra imaginar de trilha sonora de filme, com uma figura misteriosa e solitária andando pelas ruas. A levada da música é mais próxima do rock. A faixa seguinte, In, já é mais cigana, com mais Georgia, mais animada. Fechando o EP, Cracked, que é mais triste, com um violão mais clássico.

O segundo trabalho, We´re not Dancing, de 2008, não tem tantas faixas a mais que o primeiro EP. A primeira faixa, Outrageous, lembra muito Fiona Apple, e Georgia mostra mais a potência de seus agudos. Ela reaparece no próximo album. Na segunda faixa, Soldier, além do violão, temos também piano. É lenta, é triste e é perfeita.

Outras faixas do We´re not Dancing ganharam vídeos: I’m going to be a murderer, que tem uma coisa mais anos 30 (dark cabaret intravenoso) e Beware. O vídeo de Beware é sensacional. A música é de uma depressão profunda… mas muito bem executada.

E fechando com puro glamour E insanidade, a dupla nos presenteia com essa versão nova – agora com um vídeo! – de Trust, que é MUITO melhor do que anterior. Não que a primeira seja ruim, mas a versão nova é uma loucura, mais rápida, mais casal-maluco-se-matando.

Hung, Drawn and Quartered, de 2010, é o trabalho mais recente da dupla inglesa. Antes de ouvir, recomendo pegar uma caixinha de lenços e botar do seu lado. Você vai precisar, porque é lindo demais. Ela já era boa antes, mas nesse álbum a voz de Georgia passa tanto sentimento que ou você chora junto ou pensa que em algum momento ela matou o Ben. E isso em só 8 faixas. A primeira delas, é Chewing Gum, do primeiro EP. Não tem diferenças de arranjo tão gritantes ( em Early Recordings, era ao vivo, e agora é em estúdio), mas a música parece tãaao melhor…

Sabe a caixinha de lenços? Necessária ao ouvir Soundproof Box. Georgia bota tanta emoção na música, a letra de uma dor de cotovelo profunda…. Ouve aí:

Dando um intervalo na depressão, temos a “festiva” The Dancing Dolls of Porcelain. Os “hey! hey!” são muito… festivos! E daí que a letra não é? O que importa é que ela está entre Soundproof Box e A Brand New Me, impedindo que você desidrate até a morte.

Em A Brand New Me, Georgia vai do agudo pro mais agudo e então pro supersônico e volta pros graves como se isso não fosse nada demais. E não é só alcançar agudos: ela efetivamente canta em notas absurdas. Faço minhas as sábias palavras de Amanda Palmer: “Holy shit, that girl can sing!”.  Causa arrepios! Causa lágrimas! Causa!

A seguir, Stand to Attention, que é outra loucura: vai do rápido pro lento, pro rápido de volta, do agudo pro grave e pro agudo de volta. Resume bem a proposta musical da banda. É a música mais longa da banda também, tem um pouco mais de cinco minutos.

Restam ainda três faixas: Deficiency of You, com o Ben resolvendo mostrar que não é só a Georgia que faz o que quer com a voz,  Limp, que parece música de ninar, e  a nova versão de Outrageous, com o violão um pouco mais ressaltado do que na primeira versão.

Bitter Ruin é, hoje, uma das minhas bandas favoritas. E nem é pelo fato deles serem lindos ou das músicas serem quase sempre sobre o lado dark dos relacionamentos. Ben e Georgia são incrivelmente talentosos, escolheram um estilo próprio e se mantiveram fiéis a ele. E brincam com toda a técnica que possuem. E ao vivo eles mantém todo esse poder. Não é muita gente que consegue. São três álbuns ótimos, não dá pra dizer qual é o melhor. Não é, infelizmente, uma banda que eu veja estourando as paradas de sucesso por todo o mundo um dia. Mas é música boa, bem feita e eu realmente recomendo ouvir pelo menos uma vez. Ou duas. Ou várias.

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