Análise: Cisne Negro

Desde que o mundo é mundo, a humanidade adota temas para ambientar suas histórias, durante um período de tempo. As aventuras, os suspenses e os temores são reflexos dos medos da sociedade. Na antiguidade, os obstáculos enfrentados pelos protagonistas eram criaturas de terras inóspitas, lugares nunca explorados, onde o ser humano nunca pensou em estar, como Tarzan, por exemplo.
Com a chegada do século XX, o mundo completamente explorado, as aventuras e os obstáculos passaram-se pro espaço sideral, criando um ambiente inédito para novas aventuras. Bons exemplos são os livros de Isaac Asimov, a série de filmes Star Trek e Star Wars e as séries Flash Gordon, Buck Rogers e Battlestar Galactica. Com a iminência do século XXI, onde nada é mistério por muito tempo (ou pelo menos, assim pensam os pessoas), as histórias começam a se voltar para nós mesmos, e a mente humana se transforma no grande “lugar desconhecido”, ou “inimigo a se enfrentar”.

“Nós somos o nosso próprio obstáculo”. É com essa premissa que Cisne Negro é conduzido. Ao adentrar no universo particular criado pelo medo e insegurança de Nina Sayers, o expectador é convidado a participar de uma experiência de tensão e, por que não dizer, terror, ambientado numa companhia de balé.

Nina (Natalie Portman) é uma bailaria de 28 anos, extremamente perfeccionista e insegura quanto ao seu futuro na companhia de balé. No momento em que a bailarina mais famosa da Cia se aposenta, Nina tem a possibilidade de protagonizar o espetáculo mais concorrido de quinze entre dez bailarinas no mundo todo: O Lago dos Cisnes. Paralelamente, a entrada de uma nova integrante ao grupo de balé, Lily (Mila Kunis), menos técnica, porém não menos talentosa, faz com que Nina entre numa paranóia sem precedentes pela conquista do papel e pelo triunfo sobre Lily.

A direção de Cisne Negro é de Darren Aronofsky, pontual em explorar o universo dentro do ser humano, como feito por ele em Requiem Por Um Sonho, A Fonte da Vida e O Lutador. Este último, aliás, vencedor de diversos prêmios, é considerado um filme irmão de Cisne Negro, criados juntos, mas com desfechos distintos: enquanto em O Lutador, o protagonista vê a realidade ruir em meio a sua própria instabilidade emocional, em Cisne Negro, o maior obstáculo na vida da protagonista é o desejo pela perfeição profissional, mergulhada numa grande viagem esquizofrênica dentro da inspiração de Nina: ser a Cisne Rainha.

A relação de Nina com sua rival na Cia destaca o mistério sobre os acontecimentos serem reais, ou apenas ilusões da protagonista. Nina é extremamente quieta e compenetrada, enquanto Lily, por sua vez, é desinibida e extrovertida. Nina preza pela discrição, Lily gosta de chamar a atenção. Nina passa o filme inteiro vestindo roupas claras, tons de rosa e braço, já Lily só usa roupas pretas. Nina é tão técnica que não consegue dar a emoção necessária para interpretar o ardiloso Cisne Negro, enquanto Lily é a personificação do personagem sombrio, mostrando uma sensualidade fatal e perigosa, em muitos momentos. Toda essa rivalidade é intensificada pela relação das bailarinas com o diretor do espetáculo, Thomas Leroy (Vincent Cassel), que pressiona Nina a ser uma artista com mais paixão, usando artifícios bastante inadequados. Esse triângulo é necessário para tornar a história de O Lago dos Cisnes crível no mundo real das personagens.
O drama de Nina ainda é ressaltado pela relação dela com sua mãe, interpretada por Barbara Hershey; uma mulher controladora e possessiva, que trata a filha como uma menina e, muitas vezes, tem suas intenções reais indefinidas: seria ela uma mãe opressora, mas determinada em transformar a filha em uma grande bailaria ou uma mulher invejosa que vê na própria filha o motivo do fim de sua própria carreira nos palcos?

Toda essa tensão é causada por que vemos o mundo do filme pelos olhos de Nina, somente. Não existem pontos de vista a se comparar, apenas o ponto de vista de Nina. Por isso, até o final do filme, é difícil saber se tudo o que acontece na vida da protagonista é uma grande loucura ou uma conspiração sobrenatural para tirá-la do posto de estrela do espetáculo.

Além das excelentes interpretações de Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel e Barbara Hershey, Cisne Negro se destaca por muitos outros detalhes que compõe o clima de tensão. A fotografia do filme é assinada por Matthew Libatique, que deixa o filme muito mais sombrio e denso, com closes fechados nas reações das personagens, ambientes escuros e câmeras trêmulas. A equipe de efeitos sonoros merece um destaque, introduzindo pequenos efeitos em momentos determinantes do filme, como o som do “bater de asas de um pássaro”, pode ser ouvido diversas vezes. Mas o meu maior destaque vai para a equipe de efeitos visuais, criando uma das cenas mais emblemáticas que eu pude ver nos últimos anos. Não é uma tomada que pode ser descrita, apenas vendo para entender. Isso é passar a emoção de um espetáculo de balé para as telas de cinema. This is art!

Podemos esperar um futuro de prêmios para o filme? Acho que sim. Cisne Negro tem tudo para ganhar nas categorias Melhor Atriz (Natalie Portman), Melhor Edição e Melhor Fotografia. Com um pouquinho de fé (não custa nada sonhar…hehehehe) pode ganhar nas categorias Melhor Filme e melhor diretor.

Então, querido leito, se você curte um bom cinema (de conteúdo, acima de tudo), que te prenda na poltrona tirando o seu fôlego,  não irá se arrepender em conferir Cisne Negro, a partir do dia 06 de fevereiro, nas principais salas de cinemas de todo o país.

Fontes: [IMDB]

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