Crítica: Prometheus (alerta de spoilers) – UPDATE

Após muitos anos de afastamento, Ridley Scott volta à ficção científica com Prometheus, prólogo da série de filmes iniciada por ele em Alien: O Oitavo Passageiro. Muito aguardado e muito criticado.

Essa incompreenção deve-se à subjetividade do filme, roterizado por John Spaihts e Damon Lindelof, e às expectativas errôneas de muitos que esperavam por “resoluções” e filosofia. Superficialmente, Prometheus conta a história da tripulação de nave homônima, numa expedição a outro planeta, em busca das respostas da origem da vida na Terra, a partir de pinturas rupestres que confirmam a existencia de uma civilização alienígena.

O principal erro de interpretação é o significado por trás do filme. Inicialmente parece ser um filme filosófico sobre a origem da vida e o universo. Durante a primeira metade enxergamos muitas referências a outras bem sucedidas histórias que trabalham essa vertente, como no momento em que o computador cumprimenta o personagem de Michael Fassbender com um emblemático “Bom dia, Dave”. O que está escondido por trás da cortina é o mesmo em todos os outros filmes da série Alien: a metáfora da maternidade em relação à afirmação do sexo. Nos filmes anteriores, temos Rippley: um ode ao feminismo. A primeira heroína que assume um papel rígido e não é vista como sexo frágil, além de todas as suas questões com a maternidade, explorada nos filmes seqüentes. Em Prometheus, o duelo de personalidades femininas acontece entre as duas figuras principais de comando na nave: a crédula cientísta Elizabeth Shaw e a fria burocráta Meredith Vickers. Shaw, responsável pela descoberta da possível civilização que deu origem aos humanos, tem um romance com o também cientista Charlie Holloway (Marshall-Green), além de um passado conturbado pela morte repentina de seu pai e o drama de não poder engravidar. Já Vickers, dona da empresa Weyland, responsável por financiar a expedição, é autoritária, fria e capaz de usar o sexo para demonstrar poder e superioridade. Esse choque de conceitos dita o caminho das duas personagens, em direção a um futuro não muito feliz e tão pouco justo aos tripulantes da nave. A ode ao sexo pode ser visto inclusive no físico da raça natural daquele planeta; muito fortes, com músculos bem talhados e feições que mesclam delicadeza com agressividade.

Infelizmente para nós, o tempo passa e as pessoas mudam (ou a indústria muda você). O próprio Ridley Scott não é mais o mesmo e quando observamos o filme por um ponto de vista neutro, vemos uma película com muitas… MUITAS interpretações religiosas, se distanciando, pouco a pouco, do propósito da existência da ficção científica: contestar científicamente o que antes fora entendido por uma ótica divina. Quando observamos os últimos filmes de Scott (como Um Bom Ano, Robbin Hood e Cruzada, por exemplo) e analizamos a direção e roteiro de Prometheus, tudo isso começa a ficar muito mais claro.
A protagonista, claramente mais vulnerável e ingênua que uma Ripley, nos mostra uma perseverança e um “triunfo” (defina triunfo… hehehe) a partir da sua prórpia humildade. Hoje em dia, a mulher forte e decidida pode ser vista como arrogante. Os closes no cruxifixo de Shaw; o fato de, mesmo sendo uma cientista de tamanha importância no ano de 2093, ter uma necessidade em “acreditar”, beirando a infantilidade; o Natal usado como base cronológica para o momento de chegada ao planeta do “criador’… Todas essas coisas, unidas ao fato do filme “punir” aqueles que questionaram a existência desse criador, mostram o atual direcionamento de Scott em não se comprometer com um debate que ele mesmo colocou em pauta (isso para não dizer que ele desfavoreceu a audiência REALMENTE fã da série).

Bom, tenho outras críticas, mas prefiro pular para os elogios, antes que eu me transforme num crítico de cinema chato e de tênis verde… hehehehe

Por exemplo, o terror em si. Nada como ver um filme aterrorizante que não precisa se agarrar em truques baratos para dar medo em seus espectadores. Um filme de terror/suspense não precisa ter personagens burros para justificar suas mortes ou suas escolhas erradas (mesmo eu achando que a cena do bíologo “brincando” com a cobra alienígena foi BEM desnecessária). A direção das cenas de pânico e a tensão criada pela trilha sonora impecável já seriam suficientes para fazer de Prometheus um filme de suspense/terror a ser lembrado.

A participação de HR Giger como supervisor visual de Prometheus era tudo o que nós fãs  gostaríamos de ver. O filme é muito mais limpo e claro que seus predecessores, mas os elementos sombrios e o interior da nave alien em formato de ferradura nos fizeram acreditar que esse era um filme da série. Inclusive, para quem é realmente fã de Giger, eu desafio a descobrir todas as 8 criações gráficas que foram incorporadas em cenários e paisagens, em 124 minutos de filme.

Acredita que esse desenho do “Engenheiro” foi feito em 1977?

Outro momento lindo é a introdução dramática da morte do “sacerdote engenheiro”. Ouvi questionamentos sobre o por que daquela cena. Com o fim do filme e com diálogos que davam a entender que a nave encontrada no deserto era uma espécie de máquina militar, é possível interpretar que aquele engenheiro de aparência triste, morto aos primeiros minutos de filme, seria um sacerdote em busca da libertação, fugindo do futuro genocida de outros da sua espécie. Não é difícil fazer um paralelo com as atitudes humanas, muito menos quando a espécie em questão é a que deu origem a todos nós.

NOTA NERD: fato interessante que eu PRECISO falar é que descobrimos que Ridley Scott é muito fã da Street Fighter. Vai dizer que os Engenheiros não são IGUAIS ao vilão de SF4, Seth! Não tem nem o que discutir! hahaha


Infelizmente para a Capcom, o concept do Giger veio antes! Beijos!

Mas para mim, o melhor da produção foi a interpretação precisa do androide David, feita pelo queridinho do momento (com todo o mérito) Michael Fassbender. Contraditoriamente, o robô criado para vigiar a ação dos humanos é a personagem mais profunda de todo o filme. Uma serenidade sombria e expressões neutras, remetem ao trabalho de seus predecessores que ocuparam esse papel… Além de uma humanidade deturpada, mostrada por sua obsessão por Lawrence da Arábia ou pelos questionamentos sobre a conduta do ser humano. Um papel muito interessante na carreira deste ator com tantos personagens diferentes entre si.

Avaliação inicial: 7

Megalomaníaco? Com certeza. Faltou um pouco de ousadia e sobrou pretensão. Exerce bem o papel de “filme da série Alien“, mostrando como é complicado a vida da mulher num mundo naturalmente masculino, mas poderia ser melhor. Infelizmente, não encontramos uma ligação direta com o “Oitavo Passageiro”, já que as pontas que deveriam se juntar, ficaram soltas para a conclusão de um final não totalmente trágico. O “felizmente” nem sempre significa terminar bem.

 ———————————- Update:

Após rever Prometheus numa uma distancia humana, numa tela menor (assisti a primeira vez na terceira fileira do IMAX). Depois de analisar cada detalhe da trajetória dos personagens. Depois de rever o Alien: O Oitavo Passageiro. Depois de rever os trailers e os comentários do próprio Ridley Scott sobre o intuito da produção de Prometheus, antes do lançamento oficial do filme. Depois de tudo isso, eu mudo a minha nota.

Avaliação final: 4

Da pra ganhar dinheiro sem fazer espectador ou fã de palhaço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *